PLASTICKY


QUASE UM PEDIDO DE PAZ?
19 de setembro de 2010, 4:14 AM
Filed under: Diary, Fashion, Fashion Shows

Li vários textos, reportagens e críticas essa semana, tudo sobre a semana de moda de Nova York. Em geral, muitos falavam de como os estilistas apresentaram coleções que lembravam muito a década de 90 e a década de 70. Totalmente inversos, mas com algo importante em comum.

Na minha concepção dessas duas décadas – e de seus respectivos movimentos de moda – ambas aconteceram depois de momentos fortes. Se a gente voltar no tempo, vamos reparar que na década de 40 por causa da guerra, não havia uma preocupação geral em “estar na última moda de Paris”, obrigações em relação a isso – as mulheres nessa década tinham que trabalhar! Até que veio o New Look em 1947 revolucionando tudo e fazendo todo mundo voltar a se montar, dando origem aos anos 50, que foi uma delícia de década (quem nunca quis fazer uma viagem no tempo só pra passar uns dias vivendo dentro daqueles vestidos incríveis?).
Logo depois veio os anos 60, que também foi revolucionário já que nessa década nasceu a moda jovem. Mas aí no finzinho da década, todo mundo pôde respirar um pouco com o movimento hippie. E porque foi um “respirar”? Porque depois de tanta montação pós New Look, o Movimento Hippie veio pra deixar todo mundo de cabeça mais livre pra se vestir, e até o conceito deles é muito de “paz e amor”, né? Os hippies valorizavam muito mais a mensagem que eles queriam passar, de amor, paz e alegria, que suas roupas tinham que condizer apenas com o que eles sentiam. Mas tudo com super liberdade! Se a gente lembrar dos Beatles, vamos perceber que eles começaram engomadinhos – muito fofos e lindos por sinal – mas terminaram se vestindo com roupas coloridas e doidonas, meio no dresscodes e muito mais haver com o momento deles, sabe?

Pulando da década de 70 pra de 80, a gente vê a mesma coisa acontecer de novo. Os anos 80 foi uma década de muita montação, de exagero mesmo – como é conhecida. E dela se seguiu os anos 90, super minimalista, pra todo mundo recuperar o folêgo.

O que eu quero dizer é que depois desse inicio de milênio cheio de acontecimentos importantes pro mundo da moda – evolução do fast-fashion, evolução da informação instantânea, surgimento dos blogs, da importância da moda de rua, criação do conceito do estilo próprio e por aí vai… e põe coisa nessa lista! –  todo mundo tá meio “a fim” de relaxar. Como um pedido de paz mesmo.
A moda em geral tem se tornado sufocante nesse início de milênio – bem diferente da década de 50 e 80 onde montação muitas vezes era sinônimo de diversão – significando quase um beco sem saída para os mais realistas – ou pessimistas. É como se houvesse uma pressão sobre “estar na moda”, sobre acompanhar o ritmo alucinante em que as coisas acontecem nos nossos tempos. As marcas de moda também se sentem assim, obrigadas a lançarem novidades sempre – porque agora existem as fast-fashion pra competir, elas que copiam tudo sem vergonha alguma.

Só que nessa velocidade de tendências que são criadas e descartadas num curtíssimo espaço de tempo, roupas passam a não significar nada. Você mal tem tempo de usá-las direito porque não duram, ou simplesmente porque ficam fora de moda.

Vestir só realmente significa algo – no fim das contas e literalmente falando – se roupas significam algo a mais pra quem as estão usando.

A gente olha para as nossas referências atuais e se depara com pessoas que se montam o tempo inteiro com tendencinhas do momento, com os últimos looks dos desfiles – apoiadas por stylists que nada ensinam sobre estilo, apenas entopem essa gente de informação sobre “looks certeiros”.
Ou então a gente se depara com figuras como Lady Gaga, que apesar de ser fantástica como artista e impulsionar todo mundo a pensar “use o que quiser, dê a louca na hora de se vestir, não tem problema”, também ajuda todo mundo a ficar preocupado com isso o tempo inteiro.
O resultado é um monte de gente se montando, tentando o IT-look da revista (sem pensar no quanto essa expressão não tem personalidade alguma), querendo imitar técnicas ensinadas de forma medíocre para tentar parecer algo/alguém. Copiando looks de personalidades – em vez de as usarem apenas como uma referência.

A cópia é exaustiva nesse novo milênio. A tecnologia só tem ajudado, por sinal.

Semana passada em aula eu disse que um estilista esperto faria um desfile fechado, em que as fotos demorassem um tempo para chegar ao público.  A ousadia  dos nossos tempos é proibir o uso de  Blackberrys e Iphones nas salas de desfile, certo? Ponto pro Tom Ford, foi exatamente isso que ele fez.

Voltando a falar dos desfiles que originaram esse post, o melhor da coleção de Marc Jacobs é que além de muito anos 70, ela é muito “kitsch”. Esse termo se refere a um movimento artístico que apelava pelo exagero, mas um exagero lado a lado com o mal-gosto. É muita montação também, mas é sem preocupação, sabe? É muito mais pela diversão no vestir do que pela obrigação. Permite erros pra que os acertos sejam muito bons – porque quem acerta o tempo inteiro é meio sem-graça, fato!

Os melhores momentos da vida – digo os mais maravilhosos, aqueles que você sempre vai se lembrar – são feitos de coisas espontâneas, que acontecem naturalmente.

Eu quero roupas que escondam momentos, conversas, cheiros, pessoas… que tenham haver comigo. Quero comprar tendências que mexam com a minha cabeça, que mesmo depois que passem, continuem a ser usadas por mim de um jeito diferente. E que um dia, quem sabe, vá parar no guarda-roupa da minha filha. COISAS só podem ser especiais desse jeito. Roupa por si só não significa nada.

O mais legal é que pensando assim eu percebo que o que eu quero mesmo é um dia fazer roupa, que signifique esse tanto de coisa pra quem a vestir.

Essa é a humilde opinião de uma estudante, que faz questão de dizer que pode estar completamente errada. Mas também é a opinião de uma garota apaixonada pelo assunto que tá sentindo as coisas de uma forma diferente do que a maioria das pessoas.

—-

Links que super me inspiraram a escrever isso aqui: Tem textinho do Luigi Torres no FFW pedindo por uma moda menos Lady Gaga. Também tem esse post-manifesto incrível da Rita Wainer falando sobre fast-fashion e pedindo pela volta do slow-fashion – concordo muito! Ao mini-textinho do Guga no Tá Usando que tem muito haver com essa coisa de só-montação. E a Fê e a Cris (fuefas!) que sempre tão me passando essa ideia de moda da vida real que vai ser valiosa pra mim quando eu estiver do lado de lá da coisa – criando! <3 Merci!


6 Comentários so far
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Achei bem boa suas reflexões, tudo muito embasadinho!
Gostei mesmo Yas!
Bisou bisou :**

Comentário por Stephanie Noelle

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Me ganhou com esse texto,de verdade. A Paula do Sweetest falou disso num post recente, de curtir as roupas,as coisas que a gente compra como antigamente,que a genta namorava meseees e não essa onda fast de tendência seguida de tendência.
Tenho um texto que escrevi inspirada pela revista filosofia,que trazia a questão de se a gente é o que a gente consome sabe? E eu quero MESMO ser,mas quero ser consciente,fazendo sentido, pra que eu possa mais que roupas ter histórias pra contar através delas,como tu bem disse.
Adorei. =)
Beijão

Comentário por robertasampaio1

[…] conceitos de minimalismo. Depois eu parei e lembrei que eu já tinha falado de minimalismo aqui. Foi um post meio revolts, mas com indícios dessa discussão. Lá eu falei do minimalismo como uma pausa na exaustão de informação que a gente vive hoje. Mas […]

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Comentário por pc-rus.ru




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